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POBREZA MATERIAL


Os compromissos armados pelo Brasil por um trânsito mais seguro, como a adesão à “Segunda Década de Ação Pela Segurança no Trânsito (2021-2030) da Organização das Nações Unidas (ONU), em paralelo com a adoção do critério “3 estrelas ou mais” do International Road Assessment Programme – Programa internacional de avaliação rodoviária (iRAP), bem como esforços em atualizações normativas puxados por diversas entidades e associações, têm feito o país rever alguns conceitos básicos acerca da performance de suas rodovias, tanto públicas quanto concessionadas.

Contudo, diversos especialistas já apontaram que é preciso avançar ainda mais no sentido de melhorar não apenas a fiscalização da correta implantação de dispositivos de segurança, como também, melhorar a qualidade destes, para efetivamente encontrar os objetivos endereçados. E neste sentido, reside uma questão de impacto: o tipo de poste que suporta as placas de sinalização e seu comportamento em uma eventual colisão com veículo excursionando para fora da pista.

Madeira. Onipresente, barata, fácil de lidar e fácil de encontrar. Uma solução de baixo custo para suportes de placas rodoviárias, perfeita para um país “em desenvolvimento”, que possui grande destaque em “plantar florestas”, e que afinal, é um abundante provedor de insumos deste tipo de categoria, de classe mundial. Assim sendo, esta matéria poderia terminar por aqui, não fossem importantes aspectos a serem levantados quando o tema se restringe à natureza, função e desempenho desse aparentemente simples, porém em tantos casos, decisivo elemento em nossas estradas. Um tema tão sensível, a ponto de a atualizada normatização MASH (Manual on Assessing Safety Hardware - Manual de Avaliação de Equipamentos de Segurança, segundo tradução presente em documentos juramentados a que Rodovias&Vias teve acesso com exclusividade) dos Estados Unidos, proibir a utilização de anteparos (postes e suportes de placa) com este material em pistas da Administração Rodoviária Federal (Federal Highway Administration - FHWA) e, todo o sistema Nacional (National Highway System – NHS), em projetos implementados após a adoção da norma. E por bons motivos, como ilustram as imagens dos testes de impacto com veículos (Crash Tests) levados a cabo em ambiente controlado pelo Departamento de Transportes (Department of Transportation – DOT) do Texas. “Ficou evidente que a madeira não atende os requisitos, por uma série de razões. Além de ela se romper normalmente próximo onde estão localizados os nós, ela lasca, formando pontas potencialmente perfuro cortantes, que, como demonstrado podem adentrar o habitáculo e as bases restantes desses estilhaços, normalmente feitas como estacas, para cravamento em profundidade, também se soltam, podendo além de atingir o próprio veículo, impactar outros que passam pela pista e mesmo pessoas que estejam por perto, com bastante força, resultando provavelmente em ferimentos bem graves”, avalia Fábio Cunha, diretor da Renovaurb, empresa desenvolvedora e detentora da patente mundial do poste colapsível de segurança, o Ecoposte. “Mesmo os suportes com madeira tradada corretamente, como é o caso dos que foram utilizados para este teste de conformidade à MASH, se partem desta maneira, o que ocasionou a efetiva reprovação por parte do órgão rodoviário. Tomamos conhecimento inclusive destes relatórios, e das exigências à reboque, por ocasião de nossa solicitação de protocolo de elegibilidade para exportação do produto Ecoposte, para lá, um processo que está em andamento, inclusive”, pontuou o diretor.


INIMIGO INVISÍVEL

Seguindo para além da performance bastante pobre dos suportes de madeira em relação a outros mais sofi sticados, existem mais problemas sérios, como também é explorado pelo especialista em Segurança Viária, engenheiro Valter Luiz Vendramin no artigo “O Colapso Salvando Vidas”, na edição 133, da Rodovias&Vias: o tratamento destes com produtos de alta toxicidade, de uso restrito ou até mesmo proibido em outros países como o CCA – Arseniato de Cobre Cromatado – que tem em sua composição o arseniato que é o “popular” (se é que se pode considerar um veneno popular), arsênico, que dependendo da exposição e absorção é letal. Consultado, o engenheiro apontou ainda que “A falta de rastreabilidade dos suportes de madeira, bem como a ausência de uma política que contemple a reversão logística, o recolhimento desse material, é não apenas danosa para seres humanos e animais, como também é absolutamente prejudicial ao meio ambiente, por que o descarte se dá sem nenhum tipo de controle. Essa madeira cheia de resíduos – e isso não é incomum – é despejada em qualquer lugar, agindo como um contaminante poderoso contra o solo, lençóis freáticos e cursos dʼágua. Isso quando o material inservível não é simplesmente queimado, liberando esse veneno na atmosfera”, alertou. Prosseguindo, o especialista ainda levantou que “sob o prisma da durabilidade, também o suporte de madeira, largamente utilizado, não faz muito sentido, uma vez que serve para uma placa que vai apresentar uma durabilidade bem maior. Pondo em perspectiva, um suporte de madeira, mesmo com tratamento adequado que não seja o CCA – o que engloba uma minoria – dura em média 3, 5 anos sem apodrecer. Já a placa seguramente pode resistir até mais de 10 anos, tendo substituída apenas a sua superfície refletiva. Então, a troca somente do suporte em um período mais curto, do ponto de vista da operação rodoviária, além de contraproducente, representa um perigo para os que irão manipular o material, além dos riscos inerentes de uma atividade que normalmente se dá em pista sem interrupção de tráfego”, disse, continuando: “Em um contexto em que há tanta atenção às práticas socio ambientalmente sustentáveis e de ESG, com sociedade, empresas e instituições financiadoras cada vez mais exigentes quanto aos impactos que exercem e mesmo quanto às responsabilidades cobradas de seus parceiros de negócio e fornecedores, a continuação de uso persistente de um item como este é totalmente incompatível. Mais do que isso, me parece além de incoerente, inviável. Até por que o país detém tecnologia superior, com melhor performance e não poluente à sua disposição. Aí, o Ecoposte, desponta como uma possível solução. Como é constituído de material inerte, não possui nenhum tipo de elemento intoxicante para o manuseio. Reciclado e reciclável, possui múltiplos ciclos de vida, chegando a durar mais de 20 anos em seu local de instalação. E claro, em caso de impacto, se deforma de maneira previsível, muito mais segura, sem desprendimento de seus componentes”, destacou. Em se tratando de segurança viária não se pode cair na tentação do imediatismo, do mais barato, no caso o uso da madeira, mas, sim, no mais economicamente viável e seguro. A disruptura madeira/produto reciclável deve ser encarada com seriedade pelos engenheiros e gestores de rodovias e, não, simplesmente pelo valor monetário do produto sem as devidas comparações de composição de preço, ciclo de vida, logística reversa, etc. Há de se fazer um estudo completo dos serviços e tecnologias agregados ao produto que será instalado, afi nal, numa via classifi cada como “Rodovia que Perdoa” devemos sempre pensar no usuário em caso de sinistro. O uso de suportes de madeira está acrescentando um item perigoso para o usuário alavancando a rodovia à classificação de “Rodovia que Pode Matar”, finalizou.

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