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Entrevista Ricardo Teixeira


PARA ENFRENTAR NOVOS DESAFIOS, NOVAS IDEIAS


Com ampla experiência pública, incluindo orgulhosamente a companhia de engenharia de tráfego (CET) da cidade, onde ingressou como estagiário, chegando à gerente de operações, o engenheiro Ricardo Teixeira, é também um expert quando o assunto é o legislativo paulistano. a capacidade de juntar pessoas em torno de uma missão, e a mente afiada dos que possuem como prerrogativa objetivos claros, dá o tom de uma conversa franca, ainda que descontraída, sem rodeios. Típica de quem foi pioneiro em uma sistemática de trabalho conhecida como “gestão participativa”, quando de suas magistraturas como vereador, em um estilo, onde se procura, a partir de variadas perspectivas, avaliar um problema, desafio ou situação. justamente com a maturação de sua administração à frente da secretaria de mobilidade e trânsito do desafio chamado São Paulo, o gentil e articulado secretário, recebeu uma das equipes de Rodovias&Vias para externar suas visões de presente e futuro para a movimentação na megalópole.


R&V: São Paulo é um País dentro de um País. O senhor está à frente de uma secretaria que tem status de secretaria estadual, afinal. Neste contexto, o senhor traz uma visão diferenciada para esta administração, mais dinâmica e consciente das interrelações dentro do ecossistema de trânsito. Como isso funciona?


RICARDO TEIXEIRA: O prefeito, quando faz o convite para que eu viesse para a SMT, tinha o entendimento de que pós pandemia, nós teríamos, modificações importantes no planeta. Que é de fato, o que vem ocorrendo. Neste sentido, ele procura deixar as coisas mais enxutas e segmentadas na Secretaria, que era muito grande. É preciso lembrar que temos um secretário executivo que cuida do transporte, dos ônibus. E eu vim para a mobilidade. O que considero um acerto. Então, nós temos mais cabeças pensando sobre temáticas complementares, deixando técnicos como eu, mais livres para pensar as ações pós Coronavírus.


Com toda a carga de demanda da retomada, inclusive.


Sim, cargas inclusive, literalmente como você mencionou. Com caminhões “reaprendendo” a usar o viário. Vamos neste exemplo, estávamos verificando muitos caminhões “entalados”. Por várias razões. Por quê? No nosso cenário pandêmico, a secretaria teve que suspender algumas portarias, para que eles pudessem abastecer mais facilmente. Ainda, com o advento de Waze e Google Maps, que não especificam se o trajeto é ou não para veículos de grandes proporções, o que começou a ocorrer com muita frequência? Baús enroscando e demais caminhões pegando em pontes e túneis. Um problema muito grave, que exigiu – logo de cara – uma solução. E ela veio de forma bastante simples, que é o “varal”, um dispositivo com luzes e com chapas penduradas, que é capaz de alertar a altura excessiva do veículo. E que na pior das hipóteses, se não evitou, diminuiu a intensidade dos danos tanto nos veículos mais insistentes, quanto nas próprias estruturas, com impactos a velocidades mais baixas. E isso ajudou sobremaneira um esforço de manter fluidez, pois é notório aqui em São Paulo, que um pequeno caminhão entalado em uma ponte, sempre causa um grande congestionamento na cidade. Esse, na verdade, seja até um problema menor, frente a outros que nós precisávamos urgentemente endereçar, que era a letalidade do trânsito, os acidentes com mortes. Tanto de motociclistas, quanto de pedestres. Poxa. Se você olhar os números, é como se estivéssemos em guerra. Não dá para admitir.


E isso nos leva à inovações importantes, como a “Faixa Azul”, não?


Sim, nos leva à busca por soluções para atacar esses problemas, e uma delas, culminou, na concepção do engenheiro Luiz Fernando, da CET, que é precisamente a Faixa Azul. Aliás, nós tivemos que explicar, inclusive, por que esta iniciativa deu certo, e as tentativas anteriores deram errado...


Verdade, São Paulo fez tentativas anteriores sem resultados positivos. Por quê?


Basicamente, nós não tentamos reinventar a roda. O que fizemos foi demarcar um espaço que já era mais utilizado pelos motociclistas, o “corredor”. Já as outras propostas, não faziam assim. Elas retiravam esse fl uxo do eixo e o escanteavam. E isso causou problema tanto para motoristas quanto para motociclistas. E o que é pior, causou problemas para os pedestres pois começaram a aumentar os atropelamentos por motocicletas. Por sinal, começamos falando de pós pandemia. E essa realidade se acentuou, da seguinte forma: com o achatamento dos salários e a crise advinda da pandemia, muitas pessoas migraram dos carros para as motocicletas. E isso colocou fatores na balança, como mais pessoas, no guidon. E isso ocorreu também com as bicicletas. Tudo isso nos fez enxergar muito claramente que a cidade estava se recompondo, e que nós precisávamos compreender melhor e efetivamente construir melhor, a mobilidade desse momento pós pandemia, com propostas novas. Nós entendemos desde o começo, que para enfrentar esses novos desafios, eram necessárias novas ideias. Por sinal, tudo era muito novo em si. A própria Secretaria, como era inexistente, também não dispunha de recursos. Os que eram existentes, eram destinados para a CET e para os ônibus. Então, foi primeiro necessário dar luz à essas novas políticas. Construir, conceber, levar os projetos para a frente, e convencer quem poderia liberar recursos, de que eles realmente funcionariam, para finalmente haver acesso a eles, para que pudéssemos promover as licitações e isso caminhar. E tudo isso leva um tempo. Seis meses, se tudo correr bem e todas as dúvidas forem sanadas. Mas o fato é que conseguimos êxito, obtivemos sinal verde em Brasília e fomos apresentando os resultados.


Falamos até aqui de meios individuais. E os coletivos?

Bem. Eles perderam passageiros. Ainda não chegaram aos patamares de utilização que tinham antes da Pandemia. Ainda, nós tivemos modificações significativas em questão de linhas de ônibus ofertadas, algo normal. Adequações. Faz parte de enxugar a quantidade de veículos, esforçando-se por manter um nível similar de tranquilidade, fluidez e segurança, e ainda assim sem lotar os veículos, na medida do possível. O fato é, fizemos diversos levantamentos, e concluímos que houve momentos em que nós chegamos a ter 40% a mais do que o necessário de frota circulando. Nesse meio tempo, nossa ocupação ainda não chegou completamente ao patamar de 2019. Além disso, da retomada, há a questão da sazonalidade, que está voltando com tudo. Em setembro, terças e quartas-feiras eram os piores dias de circulação. Em outubro, já estamos aí em quase 8 milhões de viagens por dia, com terças e quartas perdendo, como era antes para as sextas, e os sábados, chegando em 6 milhões de viagens. Com tendência de isso tudo ainda aumentar e muito. Afinal, São Paulo vende para a América, vende para os outros municípios do Estado, para os outros Estados, e diversos países. Então, estamos prevendo um pico daqui ao Natal, de um número muito, mas muito maior de pessoas circulando. Ora. É preciso entender que a cidade tem uma capacidade limite. Os congestionamentos hoje, a falta de mobilidade hoje, não está restrita apenas ao centro expandido. Esta situação se repete também, na periferia. Aos domingos, por exemplo, quem mora fora do centro expandido evita sair de carro. Outro ponto, é a coordenação disso, olhando pelo viés mais simplifi ado, os semáforos. Chegamos, com esses contratos praticamente encerrados, nenhum dispositivo “inteligente”, muito poucos deles interligados, e os contratos antigos ainda vigentes, que cobriam apenas manutenção, não ampliação.


Nesse momento é que a PPP dos semáforos se torna uma realidade?


Justamente. E foi olhando a PPP de iluminação, que se entendeu, juridicamente, a possibilidade de emular algo parecido para os semáforos. Isto, em uma situação que nos colocava, com um parque semafórico perto de 6500 dispositivos, de termos dias em que cerca de 500 eram vandalizados. Em um só dia! Houve situações, em que a equipe destacada para fazer reparos, estava passando fio no duto, e outra pessoa já puxando esse mesmo fio para furtar na outra esquina.

Um “cabo de guerra”, quase...


É. Um cabo de guerra mesmo. Isso quando não registrávamos assalto aos caminhões de suporte. Então, nós chegamos a ter operações monstruosas, junto à vários tipos de polícias, para tentar coibir esse comércio ilegal.


E isso foi contemplado nos novos contratos?


Sim, nós repassamos para a iniciativa privada. Mas veja. Isso era um ônus terrível também. A CET consertava cerca de 2 mil a 2,5 mil semáforos por mês. E com alguns itens do contrato, alguns já com 7 anos de vigência esgotados, até por conta do vertiginoso aumento de roubos. Enfi m, a lei não permitia. E a iniciativa privada vem, justamente para ter mais agilidade nessas compras. Tanto é que hoje nós temos raras ocorrências do tipo sendo registradas. Paralelamente a isso, foi possível também, algo que há muito nós queríamos, que era a modernização dos semáforos. E claro, isso de uma maneira muito bem estudada, pois somos confrontados com a modernidade. E ela acontece sempre muito mais rápido do que prevemos. Veja o advento dos carros autônomos. E pense em uma hipótese: Logo logo, serão uma realidade os carros sem motoristas nas ruas, e eles tornarão o semáforo em uma peça de museu. O pedestre, quando for atravessar uma rua, terá o seu ID num mapa virtual, sendo repassado para um operador que estará em nuvem, isso se não for uma Inteligência Artificial que analisará as retenções e as travessias. E isso modifi ca completamente a natureza de uma operação de trânsito. E o técnico tem que estar preparado para essa mudança. Isso já foi inclusive apresentado nesta mesa, por empresas do “Vale do Silício”. E o que posso dizer com toda a certeza: vai acontecer. Não é ficção. É mera questão de tempo. E nós precisamos entender é que há uma mudança de comportamento, motivada em alguns casos pela própria tecnologia. E mesmo novas possibilidades de dispositivos. Falando de comportamento, é interessante observar, por exemplo na Faixa Azul, que nós tivemos acidentes de natureza que antes quase não aconteciam. E por mudança de comportamento. Não estou falando de AutoMoto, mas moto com moto, por tentativas de ultrapassagem entre motociclistas, dentro da Faixa Azul, o que é importantíssimo frisar, não é permitido e nem o intuito dela.


Extrapolou a função do dispositivo.


Sim, é uma questão de sensibilizar o motociclista. De conscientizá-lo. A CET vem estudando mais esse lado comportamental, e promovendo junto à secretaria reuniões com os motofretistas neste sentido, de melhor compreensão e educação no uso desse dispositivo. Nós entendemos o contexto deles. É corrido, é estressante. Porém, eles precisam compreender melhor como utilizar esse verdadeiro benefício que conseguimos implantar. Estamos então, mobilizando a sociedade. Afinal, a mobilidade é feita por pessoas e essas pessoas precisam estar cientes das regras, por que elas, além de ordenar, são uma camada de segurança. Uma proteção contra o acidente.


E quanto às bicicletas?


Nós estamos verificando um desafio fenomenal aos fi nais de semana. São cerca de 100 Km de vias, em que as famílias, saem para pedalar pela cidade. Nós tínhamos um contrato com a Uber, que ao fi nal deste não demonstrou interesse em continuar, o que nos fez abrir uma nova licitação, ganha por uma agência, que saiu para o mercado buscar patrocínio e não conseguiu. Conseguimos, contudo, junto com a CET, com o “time da casa”, para manter um nível de sinalização com vistas a garantir a segurança dessas famílias. Num dia comum, nós temos aí cerca de 700 funcionários contribuindo com esse esforço de reforçar a sinalização, com bandeirinhas e etc. E nós temos visto que tem funcionado. Eu mesmo, percorri uns 70 Km e não encontrei problemas. Mesmo sem os bandeirinhas. E isso se deve muito por conta do comportamento. O motorista já sabe que ali tem um usuário com perfIl recreativo, e que está em meio à crianças, jovens com skate, patinete, etc. Por outro lado, o ciclista, compreendeu que é preciso obedecer a sinalização. Voltando às visitas que eu fiz, o que verifiquei foi um comportamento adequado. Respeito mútuo. Voltando um pouco, acho que esta será uma realidade também para a qual a Faixa Azul caminhará.


E quanto suas percepções de futuro, já que falamos de realidades tecnológicas que em breve poderão estar mais presentes na atuação tanto da SMT quanto da CET? Justamente olhando para isso, que nós estamos contratamos uma consultoria, a FIA (Fundação Instituto de Administração) ligada à USP, para nos apontar, com base nos cenários que estamos já antecipando, qual será o futuro do nosso funcionalismo, o novo perfil da nossa prestação de serviço, dentro desta nova dinâmica de mobilidade que se desenha para nós. O 5G está aí. Temos uma migração muito grande de pessoas do carro para a moto e outra igualmente ponderável que sai do ônibus para a bicicleta. Atentos a isso, dentro do nosso plano cicloviário, estamos preparando-nos para saltarmos dos atuais 100 para 2000 Km de ciclovias e ciclofaixas para atender essa demanda. Paralelamente, vamos colocar em prática também, as expansões da faixa azul. Porém, dentro de uma mudança signifi cativa de mentalidade: Quando eu entrei na CET, o grande mote da companhia era a fl uidez. A cidade não pode parar. E hoje, não é mais assim. A cultura da cidade mudou. E a CET está se apropriando desta nova cultura, que prioriza o ser humano. A vida. Além disso, a mobilidade tem incorporado novos conceitos. Antes, as pessoas andavam à pé, mais por necessidade. Hoje, nós vemos que as pessoas caminham efetivamente como meio de locomoção mesmo. A ponto de termos, por exemplo na Moóca, uma concentração tão grande de pedestres, por conta da grande quantidade de universidades que por ali existem, e de uma grande maioria de alunos que mora por perto de seus locais de estudo, que a subprefeitura teve que abrir novos projetos, não para ampliação de viário, mas de calçadas. Não somente ampliar, como refazer calçadas, em um dos bairros mais antigos da cidade. E esse é um exemplo. Esse fenômeno também está ocorrendo na periferia. E por motivos muito parecidos, esta gestão da prefeitura tem investido, não apenas em calçadas, como também nas “lombofaixas”, um projeto que está sob a CET, priorizando os pedestres. E sempre, sempre, sempre, com o foco na segurança, na vida, no ser humano. Estamos procurando cobrir, de A a Z tudo o que se move pela cidade, procurando dar o tratamento mais atualizado e pertinente possível. Outro fenômeno que tem contribuído muito para essas modifi cações, é o que chamamos de “distritalização”, com as pessoas buscando cada vez mais, residirem mais perto de onde estudam e trabalham. Paralelamente, a oferta descentralizada de serviços, e mesmo um maior alcance aos serviços, tem contribuído para que os deslocamentos tenham ficados mais curtos e por meios alternativos. E o poder público, na figura da Secretaria e da CET tem que estar atento a isso.


Daí então a ideia de contratar uma consultoria externa.


Sim! E para desenvolver um trabalho capaz de nos situar dentro desse contexto que está em processo de evolução, com insights de pessoas de fora, que tenham condições de tecnicamente, nos fornecer embasamento para ver se estamos caminhando na direção certa enquanto instituição. A intenção com isso, é fortalecer os pontos onde estamos acertando, corrigir onde estamos pecando, e fazer as adequações necessárias



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